quarta-feira, 1 de maio de 2013

Humildade





Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem pra quê.
Cecília Meireles
 
Eu estou vivendo uma fase em que muito tenho pensado sobre a humildade. Sobre o significado dessa palavra para mim. Sei que ainda não a entendo completamente. O que é preciso para ser humilde? Tenho sido? E se não, por quê? Conheço pessoas que possuem uma simplicidade natural, gostosa. Você não se sente constrangida diante delas, porque elas não reparam na sua roupa ou no que você tem. Simplesmente elas gostam de estar com você. Quando você precisa delas, de alguma forma, elas estão lá.

Nos meus trinta e seis anos de vida aprendi que humildade não é sinônimo de roupa barata ou cabeça baixa. Humildade é a falta de barreiras nos olhos, é o enxergar o que o outro tem de especial, é saber que temos nossos limites e não somos melhores do que ninguém, é enxergar o próximo como alguém interessante, alguém que tem algo para nos ensinar. Ainda não sei se a humildade é um total desapego a nós mesmos, pois não é fácil esquecer de si mesma em prol do próximo. Talvez o que realmente devêssemos fazer é nos valorizar mais. Quando não enxergamos o que o outro tem de bonito, é porque não conseguimos enxergar essa mesma beleza em nós. Se alguém na infância nos fez ver o que tínhamos de melhor, provavelmente na maturidade temos facilidade em enxergar isso nas pessoas. Porém, se não tivemos alguém que nos valorizasse e fomos mais criticados do que realmente elogiados, provavelmente nos tornamos mais duros e críticos também. Como fugir dessa roda-viva? Como escapar de algo que não nos traz tantos benefícios? Eu apenas posso dizer que observo muito as crianças: percebo que elas tem uma noção de si mesmas, porém não pensam constantemente nisso. Elas se encantam com "os outros". Sabem reconhecer os que sabem mais do que elas, gostam de estar com outras crianças. Às vezes se desentendem, mas logo esquecem do ocorrido para se divertirem novamente. Nenhuma criança, por mais certa que esteja, gosta de se desentender com os coleguinhas e ficar sozinha em um canto. Elas preferem  estar em conjunto, se sentir parte de algo, seja da família ou do grupo escolar.

Enfim, não acho que saímos perdendo sendo humildes. Humildade não é sinônimo de humilhação. É sinônimo de respeito, consideração. Quando penso em alguém humilde, imagino uma pessoa com o porte reto, direito, mas com a cabeça levemente inclinada para não se esquecer de que somos todos iguais e ninguém é mais do que ninguém. Imagino os japoneses se cumprimentando ao fazer um gesto de reverência com as mãos e a cabeça, comunicando o respeito que tem ao próximo. O humilde conhece seus limites e ainda assim sabe que merece todo o respeito, porque ele, acima de tudo, sabe respeitar.



Um abraço a todos vocês.

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