"Quem sabe que o tempo está fugindo
descobre, subitamente,
a beleza única do momento que nunca mais será…" (Rubem Alves)
Vou começar perguntando, como se houvessem dúvidas dentro de mim: por que ler um livro? Por que dançar? Por que parar para escutar uma música? E por que eu deveria me tornar um fotógrafo, um pintor, ou mesmo um poeta? Nada disso fala ao meu coração. Não nasci para isso. Por que eu deveria aprender a tocar piano, um violão, um banjo ou um
cavaquinho? Por que as pessoas acham tão bonito olhar para um pôr-do-sol
quando a única coisa que eu consigo enxergar é apenas o sol se pondo?
Não vejo a lua. Ela está lá em cima e eu aqui. Não tenho tempo de olhar
para cima. Não há tempo. Não há tempo….
Vou contar a você uma história. A
história de um povo que vive em uma ilha e viveu a insegurança durante
muitos anos. Esse povo sabe o que é o medo. A máfia era quem mandava em
suas vidas, como ainda acontece de mandar. Essa ilha é a Sicília. Como
já devem ter escutado falar, sua máfia sempre foi uma das mais terríveis
do mundo. Ainda que muitos Sicilianos depositassem uma certa
“esperança” de que os membros de clãs mafiosos protegessem suas vidas
mais do que a própria polícia de seu país, viver no cenário de uma
cidade onde o calar preserva a vida, e a cegueira dos que não viram os
torna sábios, não é o que se pode chamar de “paraíso de todos os
homens”.
Talvez sonhassem com mudanças,
mas por não terem a quem recorrer, esses italianos se voltaram para o
que conheciam de melhor: a beleza. A Sicília, ainda que tenha sofrido e
ainda sofra com a violência, é uma cidade que possui monumentos de
beleza ímpar. Ainda que sentissem o peso da vida em silêncio, é um povo
que canta. Vêem a beleza nas mais pequenas coisas. O que talvez aos
nossos olhos passe despercebido, eles o reconhecem. Sua ilha, em meio ao tom
opaco das mercadorias do tráfico, possui cores vivas. Os seus vales e
costas exalam os mais diferentes perfumes que descem até as praias. O
fascínio da terra áspera que possui sabor. A Sicília dança, a Sicília
canta, chora e vive.
No Brasil, temos nossa semelhança
com eles: rimos quando muitas vezes gostaríamos de chorar e preferimos
viver a desistir. Buscamos todos os dias força e a alegria que há dentro
de nós, que nos puxa e nos atrai sempre. Porém, muitas vezes nos
esquecemos de ver a beleza da vida.
Se admire ao ver o vermelho
quente do pôr-do-sol. Aquele pôr-do-sol está ali para lembrá-lo de que
você é tão belo e suave quanto ele. O dom que temos para a música não é
para esquecermo-nos de nossas vidas, mas para senti-la, porque a música
está dentro de nós e de nós surge.
A pintura é você ali, exposto em
seus quadros, com a alma e sentimentos despidos . E os livros…. ah….
aqueles livros de literatura, que tantas vezes os professores nos
fizeram ler, são para lembrá-lo de que ainda há uma criança dentro de
você. A criança que fantasia, que chora e ri com as intempéries de seus
personagens, a criança que torce para que o seu herói se dê bem e que
todos sejam felizes para sempre. O pequeno príncipe ainda ama a sua
pequena rosa e Rubião, ainda que tenha morrido enlouquecido em seu amor,
foi digno em sua inocência.
Quanto à poesia, tão
incompreendida, ela não é palavras bonitas jogadas ao vento. É essência.
Um dia, homens se admiraram ao descobrir a beleza que há em cada
coisa, em cada acontecimento. Esses homens acolheram a vida como quem
estende a mão para a chuva. E os poetas em sua doce rebeldia ainda
escrevem: abram os olhos e enxerguem o que há de belo no mundo.
Ame a profundidade da beleza. Não
a beleza dos homens, mas a que está oculta, como uma pedra preciosa
esperando ser descoberta. Quando você enxergar as pedras que brilham nos
olhos de cada pessoa, no sol que se levanta e se põe, na dignidade dos
animais que seguem reverentes sua natureza, quando você se enxergar no
olhar sorridente da criança, então terá se tornado um poeta. E ainda que
pense em fugir, será inevitável. A beleza terá se revelado a você em
todo o seu esplendor e você será belo. Tão belo quanto tudo o mais na
natureza.
Raquel

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