“Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro.
Sou uma culpada inocente”.
(Clarice Lispector)
(Clarice Lispector)
Às vezes achamos que sabemos
tudo, se não tudo, ao menos quase tudo. Mas quantas vezes a vida não nos
surpreende e acabamos descobrindo que não, não sabemos de tantas coisas
assim quanto pensávamos? Vou falar sobre o que eu descobri esse final
de semana.
Há algum tempo atrás, para ser
mais exata há um ano aproximadamente, eu passava por um período pelo
qual muitos já passaram: os estresses da vida. Não era algo difícil, mas
me sentia um tanto ansiosa, preocupada, querendo ter controle sobre
todos os acontecimentos da minha vida. Minha superiora percebendo, me
perguntou por que eu não procurava o psiquiatra pelo qual ela passava
(fiquei até surpresa em saber que ela passava por um psiquiatra, já que,
para mim, a mente dela era perfeita e super equilibrada – pensamentos
de quem não entendia nada sobre o assunto e, (por que não dizer?) tinha
um certo preconceito ignorante). Hoje sei que a consulta com
psicólogos, terapeutas e psquiatras não só é comum, como as pessoas
estão compreendendo melhor os benefícios em se esclarecer com um
profissional.Pois bem: passei em consulta e ele me receitou um
ansiolítico de marca muito conhecida e confiável. Os ansiolíticos são
medicamentos utilizados há muitos anos e com eficiência comprovada no
tratamento da depressão e de crises de ansiedade.
Comecei com uma dose bem pequena,
porque meu caso era algo simples e comum de tratar. Pelo fato de eu
estar utilizando uma dose bem pequena do medicamento, nos feriados que
passaram há pouco, 15 de Novembro e dia da Consciência Negra, eu não
fui buscar na farmácia meus medicamentos que haviam acabado. Pensei:
“assim que passar o feriado, desço e pego o meu medicamento.” Nunca
pensei que me arrependeria tanto disso.
A princípio não me dei conta dos
sintomas que precederam a falta do medicamento: tremor nas mãos e um
pouco de insegurança. Nos dias seguintes as coisas começaram a piorar:
suores, falta de memória e minha mente já não raciocinava de forma tão
clara. Ainda assim, não me passava pela cabeça que fosse a falta do
medicamento, eu ainda acreditava que por ser um medicamento “fraco” ele
que não faria falta no organismo. O pior aconteceu do quarto dia em
diante: todas as noites eu tinha febre de 40 graus e não lembrava o nome
das coisas. Fui falar com a minha sogra sobre a mangueira que estava no
quintal e minha mente não lembrava do nome daquela “borracha comprida
que soltava água”. Lixeira, esquimó, urso, não encontrava mais na minha
mente. E então percebi que a coisa estava ficando séria.
Procurei um clínico geral o qual
mandou fazer alguns exames: dois hemogramas completos (eu sentia muuita
dor no corpo), exame de urina e… nada. Tudo estava normal. Só não me
perguntaram se eu tomava algum tipo de medicamento. No sexto dia eu já
não dormia e não comia há quatro dias, parecia um zumbi, e foi então
que o pior aconteceu: surtei. Uma noite atravessei o portão da minha
casa desesperada, achando que alguém iria me matar. Imagina a cena:
sexta feira à noite, ninguém na rua, e eu ali, correndo, correndo,
correndo! Corria o mais rápido e o mais forte que eu podia. Já não tinha
quase fôlego, mas é como se eu quisesse fugir da cidade, de tudo.
Entrei em ruas que eu nunca havia entrado antes.
Enfim, resumindo, a polícia
militar me encontrou e eu fui parar em um pronto socorro psquiátrico. Só
naquele dia os médicos descobriram que eu estava em abstinência do
bendito medicamento há seis dias. Me explicaram o que havia acontecido
comigo: meu corpo estava viciado e eu não podia suspender ou deixar de
tomar o medicamento de uma hora para a outra. Fiquei chocada com aquilo.
Eu, que sequer havia fumado em toda a minha vida, bebia só em festas,
descobri que era uma dependente química.
Confesso que ainda não assimilei
isso direito. É estranho. Sempre que me perguntavam: “você tem algum
vício?” Eu respondia: “não”. Agora já não sei nem o que responder.
Voltei a tomar o medicamento conforme prescrição médica e me sinto super
normal, como antes. O que posso dizer é que eu queria poder tirar esse
medicamento do meu corpo, mas sei que não posso, por enquanto. O médico
me explicou que tem de ser aos poucos e somente no final de 2013 não
precisarei mais do medicamento. Por outro lado, também não posso dizer
às pessoas que não procurem um especialista médico como eu fiz, porque
sei que o medicamento me ajudou muito quando eu sentia que eu não estava
bem para trabalhar e para interagir com as pessoas.
O que eu quero com esse post é
simplesmente “dizer” às pessoas que medicamento não é bala. Não é doce
que se chupa a hora que quer e o dia que não quer mais deixa de lado,
tal como fazem com os analgésicos que mais parecem refresco nas mãos de
quem não leva medicamento a sério. Lembre-se disso: medicamento é droga.
Droga como qualquer outra. A diferença é que ela é medicada e sendo bem
administrada ela age bem. Leve a sério o que seu médico lhe recomenda.
Não brinque com o que você tem de mais precioso que é a sua vida e a
vida das pessoas que você ama. Quanto à automedicação sem prescrição
médica que tanto vemos por aí, eu só posso perguntar: você está de
brincadeira, né? Cuide-se.
Um abraço desta.
Raquel

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