sábado, 1 de dezembro de 2012

Remédio não é bala







“Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. 
Sou uma culpada inocente”.
(Clarice Lispector)


Às vezes achamos que sabemos tudo, se não tudo, ao menos quase tudo. Mas quantas vezes a vida não nos surpreende e acabamos descobrindo que não, não sabemos de tantas coisas assim quanto pensávamos? Vou falar sobre o que eu descobri esse final de semana.

Há algum tempo atrás, para ser mais exata há um ano aproximadamente, eu passava por um período pelo qual muitos já passaram: os estresses da vida. Não era algo difícil, mas me sentia um tanto ansiosa, preocupada, querendo ter controle sobre todos os acontecimentos da minha vida. Minha superiora percebendo, me perguntou por que eu não procurava o psiquiatra pelo qual ela passava (fiquei até surpresa em saber que ela passava por um psiquiatra, já que, para mim, a mente dela era perfeita e super equilibrada – pensamentos de quem  não entendia nada sobre o assunto e, (por que não dizer?) tinha um certo preconceito ignorante). Hoje sei que a consulta com psicólogos, terapeutas e psquiatras não só é comum, como as pessoas estão compreendendo melhor os benefícios em se esclarecer com um profissional.Pois bem: passei em consulta e ele me receitou um ansiolítico de marca muito conhecida e confiável. Os ansiolíticos são medicamentos utilizados há muitos anos e com eficiência comprovada no tratamento da depressão e de crises de ansiedade.

Comecei com uma dose bem pequena, porque meu caso era algo simples e comum de tratar. Pelo fato de eu estar utilizando uma dose bem pequena do medicamento, nos feriados que passaram há pouco, 15 de Novembro e dia da Consciência Negra,  eu não fui buscar na farmácia meus medicamentos que haviam acabado. Pensei: “assim que passar o feriado, desço e pego o meu medicamento.” Nunca pensei que me arrependeria tanto disso.

A princípio não me dei conta dos sintomas que precederam a falta do medicamento: tremor nas mãos e um pouco de insegurança. Nos dias seguintes as coisas começaram a piorar: suores, falta de memória e minha mente já não raciocinava de forma tão clara. Ainda assim, não me passava pela cabeça que fosse a falta do medicamento,  eu ainda acreditava que por ser um medicamento “fraco” ele que não faria falta no organismo. O pior aconteceu do quarto dia em diante: todas as noites eu tinha febre de 40 graus e não lembrava o nome das coisas. Fui falar com a minha sogra sobre a mangueira que estava no quintal e minha mente não lembrava do nome daquela “borracha comprida que soltava água”. Lixeira, esquimó, urso, não encontrava mais na minha mente. E então percebi que a coisa estava ficando séria.

Procurei um clínico geral o qual mandou fazer alguns exames: dois hemogramas completos (eu sentia muuita dor no corpo), exame de urina e…  nada.  Tudo estava normal. Só não me perguntaram se eu tomava algum tipo de medicamento. No sexto dia eu já não dormia e não comia há quatro dias, parecia um zumbi,  e foi então que o pior aconteceu: surtei. Uma noite atravessei o portão da minha casa desesperada, achando que alguém iria me matar. Imagina a cena: sexta feira à noite, ninguém na rua,  e eu ali, correndo, correndo, correndo! Corria o mais rápido e o mais forte que eu podia. Já não tinha quase fôlego, mas é como se eu quisesse fugir da cidade, de tudo. Entrei em ruas que eu nunca havia entrado antes.

Enfim, resumindo, a polícia militar me encontrou e eu fui parar em um pronto socorro psquiátrico. Só naquele dia os médicos descobriram que eu estava em abstinência do bendito medicamento há seis dias. Me explicaram o que havia acontecido comigo: meu corpo estava viciado e eu não podia suspender ou deixar de tomar o medicamento de uma hora para a outra. Fiquei chocada com aquilo. Eu, que sequer havia fumado em toda a minha vida, bebia só em festas, descobri que era uma dependente química.

Confesso que ainda não assimilei isso direito. É estranho. Sempre que me perguntavam: “você tem algum vício?” Eu respondia: “não”. Agora já não sei nem o que responder. Voltei a tomar o medicamento conforme prescrição médica e me sinto super normal, como antes. O que posso dizer é que eu queria poder tirar esse medicamento do meu corpo, mas sei que não posso, por enquanto. O médico me explicou que tem de ser aos poucos e somente no final de 2013 não precisarei mais do medicamento. Por outro lado, também não posso dizer às pessoas que não procurem um especialista médico como eu fiz, porque sei que o medicamento me ajudou muito quando eu sentia que eu não estava bem para trabalhar e para interagir com as pessoas.

O que eu quero com esse post é  simplesmente “dizer” às pessoas que medicamento não é bala. Não é doce  que se chupa a hora que quer e o dia que não quer mais deixa de lado, tal como fazem com os analgésicos que mais parecem refresco nas mãos de quem não leva medicamento a sério. Lembre-se disso: medicamento é droga. Droga como qualquer outra. A diferença é que ela é medicada e sendo bem administrada ela age bem. Leve a sério o que seu médico lhe recomenda. Não brinque com o que você tem de mais precioso que é a sua vida e a vida das pessoas que você ama. Quanto à automedicação sem prescrição médica que tanto vemos por aí, eu só posso perguntar:  você está de brincadeira, né?  Cuide-se. 

Um abraço desta.

Raquel

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